17
Jan
Ciclo

Segunda Feira, rezando para chegar sexta e poder descansar, ficar ao menos dois dias sem olhar pra ele, sem se torturar olhando em seus olhos e não dizer nada. Sexta Feira, saía de lá e dizia-lhe “Bom fim de semana. Aproveita.” Ele sempre com seu “Igualmente”, sempre gentil. A verdade é que chegava sábado e no horário em que era pra ela estar com ele, ela estava em casa, provavelmente lendo ou vendo algum filme água com açúcar, sempre se lembrando que num dia de semana, nesse mesmo horário ela estaria com ele, mesmo que não da forma que ela queria.

Era um ciclo vicioso e interminável. Começava a segunda rezando pra chegar a sexta e ao menos tentar esvaziar a mente. E quando chegava a bendita Sexta, rezava pra chegar segunda. Era loucura, ela sabia. Estava sendo covarde, ou não. Tentava dizer pra si mesma que isso era alguma paixão platônica, mas nem ela se convencia disso. Sabia que paixonites agudas e platônicas eram normais, mas aquilo que ela sentia era mais.

Cada vez que olhava pra ele, sentia algo que era mais que uma paixonite, algo que era mais do que passageiro. Vergonha, timidez, medo, insegurança (assim como ele) e outros tantos motivos faziam com que ela pensasse milhões de vezes antes de sequer chegar a falar algo à ele. Não podia, ele nunca mais olharia pra ela, nunca mais falaria com ela.

Eles perderiam aquela intimidade de amigos, e ela já tinha tão pouco dele, não poderia se arriscar a perder o pouco que tinha. Engraçado como eles se conheciam há tão pouco tempo – considerando que há pessoas em seu círculo de amigos que o conheciam há mais de três anos – e ela já se sentia tão bem ao seu lado, tão confortável. Engraçado como tão pouco tempo faz com que a nossa vida mude tão repentinamente.

A cada dia que passava mais ela se desesperava. Rezava todas as noites para que talvez o Pai pudesse ter algum tipo de piedade, fazendo com que esse sentimento tão confuso fosse arrancado de seu peito. Era mais uma sexta, fez tudo que tinha que fazer, iria embora. Chegou perto dele, deu um suave beijo no rosto – seu coração palpitando só de chegar perto e sentir seu cheiro macio, tão gostoso – e disse o de costume:

- Tchau, um ótimo fim de semana.
- Tchau, pra você também! – ele sempre respondia algo desse tipo.

E ela seguia a vida, ia pra casa, tomava um banho, ia pro seu computador em seu quarto, olhava seus e-mails, olhava o facebook, twitter, ouvia música, naquele dia em especial estava ouvindo Te Devoro, do Djavan. Colocou a música cada vez mais alta, assim talvez a mente parasse de pensar e tentar adivinhar o que ele iria fazer naquele fim de semana, quantas ele ficaria, etc, etc. Cansou da internet, colocou sua playlist de músicas lentas, tanto nacionais quanto internacionais.

Pegou o livro que estava ao lado da sua cama, dessa vez estava lendo Ainda não te disse nada, do Mauricio Gomyde. Por obra do destino, estava tocando no Media Player a música Someone Like You, da Adele, mas na voz de Boyce Avenue. O cover perfeito, a música perfeita, o livro perfeito.

Há tempos ela não lia um romance tão inspirador como esse. Há tempos não havia uma trilha sonora tão boa para um livro. Há tempos seu coração não tinha a paz que ela queria.

Depois de um longo fim de semana, chega segunda feira. Lá vai ela, pensando em como ele estaria, como o encontraria nesse início da semana. Provavelmente acabado, com cara de quem não dormiu nada, pois geralmente era sempre assim. Ele se acabava de tanto beber no fim de semana, chegava lá na segunda-feira um trapo.

- Oi, boa tarde.
- Oi. – Ele simplesmente responde.

Depois de algumas conversas inúteis, ele começa novamente a puxar conversa com ela e alguns amigos por perto:
- Poxa, saí esse fim de semana, bebi tanto que nem lembro o que eu fiz direito.
- Se cuida, hein! – ela simplesmente conseguia dizer somente isso, e dava risada das besteiras que ele aprontava.

Em meio a tantas conversas, e muitas vezes deixando-a um pouco desconfortável, muitas dessas conversas faziam-na imaginar como eram as garotas que ele ficava, e o que elas tinham, que ela não tinha. Era estranho pensar tudo isso, afinal, o que ela tinha a ver com a vida dele?

Apesar de toda a diferença de idade, ela sempre se via dando conselhos à ele, e ele sempre contando das besteiras que fazia. Inacreditável. Era justamente isso que a encantava. Ela tentou dar um basta em si mesma, tentou dizer a si que não estava apaixonada, mas ela podia mentir pra todos à sua volta, tinha certeza que ninguém percebera. Mas ela percebera, infelizmente.

Não tinha conseguido dar um basta em si, e não iria conseguir tão cedo. O jeito era viver um dia de cada vez, e quem sabe se um dia ele demonstrasse algo mais que não fosse amizade, ela criasse coragem e se declarasse pra ele. Isso só o tempo diria, e ela já estava conformada com tal situação. Só era, simplesmente, difícil.

A cada início e fim de semana ela se mutilava psicologicamente. A cada aperto de mão, a cada troca de olhares, a cada troca de palavras, a cada conversa inútil ela ficava cada vez mais envolvida por esse ser com alma de adolescente. Ele fazia despertar nela os sentimentos mais confusos de toda sua vida, sentimentos que ela mal poderia saber se existiam. Ele despertava nela justamente o que ela não queria que fosse despertado. Ele despertava a magia dentro dela. Seja essa magia boa ou ruim. O jeito era esperar pra ver.

Esse texto é a continuação do conto Fachada. Qualé que é, mermão? e foi escrito por mim, na madrugada de 13 de Janeiro de 2012.


Arquivado em divagando, egocentrismo | Tags: ,

Posts Relacionados









14 Comentários em “Ciclo”


Isabella em 17/01/2012

Você quer me matar….

Agora estou louca de vez, suplico por uma continuação.

Beijos

  

[Reply]

Andreia em 17/01/2012

A continuação boa. Espero que aja mais viu? uú

É interessante a relação deles. Gostam, sabem (ou sentem) que o sentimento é correspondido e mesmo assim ficam ali, estáticos, à espera que o outro dê o primeiro passo

Na parte “e ela já estava conformada com tal situação.”, parece super fácil ao principio achar que podemos viver o resta de vida de migalhas enquanto olhamos o bolo inteiro como se ele fosse a nossa salvação. Depois, vem aquela aquele sentimento “eu valho muito mais que miseras migalhas, eu quero uma fatia do bolo ao menos!”; ai as coisas complicam mais á.

Achei que acabei divagando demais, não?! Podes dizer! T______T

O ciclo é mesmo vicioso. Dever ser ilegal. uú

  

[Reply]

Mayara Reply:

@Andreia, nem eu sei bem o que quis dizer ao escrever esse texto! As ideias simplesmente vieram, e logo depois vocês pediram por continuação e eu a fiz, mas no fim, acho que foi isso mesmo. Esse sentimento de ser melhor do que poucas migalhas, de merecer mais, de se permitir ter um pouco mais.

Eu gosto de escrever desde que me entendo pro gente, mas isso estava adormecido em mim. Somente há pouco tempo voltei a escrever, começando pela primeira parte do conto. Espero desenvolver e aperfeiçoar minha escrita ao longo desse ano e ver no que vai dar!

Obrigada por toda força,
May ;*

  

[Reply]

Fernanda N em 17/01/2012

sério, eu tô aqui de boca aberta até agora! como assim? como assim tu tá descrevendo com as mais perfeitas palavras a minha vida (ou pelo menos a que eu estou vivendo agora)… tô chocada! este texto aí ficou melhor que o outro, não preciso “trocar” nem um trecho, é bem isso mesmo… hahaha! esse negócio do final de semana é phoda, eu que o diga. não sei se desejo mais que ele comece ou que ele acabe! uhauahuahauh! dilema da vida… aliás, essa história tem me quebrado! meu 2011 foi uma bostica, mas néam? fazer o quê? aliás, quando você citou “someone like you” da adele eu ri litros aqui… até a música você acertou, cara! e pronto, néam? você descreveu, melhor do que eu poderia, TUDO O QUE EU SINTO! o texto tá perfeitooooooo… <3
beijo, beijo!

  

[Reply]

Mayara Reply:

@Fernanda N, Someone Like You é perfeita mesmo, mas essa foi propositalmente pensada em você, rs! Sei que você adora a Diva Adele, e eu também! *-* Espero que seu 2012 seja infinitamente melhor do que foi ano passado, e acredite que tudo passa! A ideia de escrever sem nomes e lugares é também um pouco proposital, eu gosto de interagir com o leitor, e isso faz com que ele se pareça mais com o personagem, ao meu ver, pois assim não há nomes, isso quer dizer que pode ser qualquer um, e também não há um lugar fixo, essa história pode se passar no trabalho, na escola, ou em qualquer outro lugar onde você menos esperar. Já estou trabalhando na continuação da história, e acho que você vai gostar bastante.

Beijos no rosto e abraços infinitamente fortes,
May ;*

  

[Reply]

Fernanda N Reply:

@Mayara, me avisa quando tu postar! tô ansiosíssimaaaaa! beijoooooo <3

  

[Reply]

Mayara Reply:

  

Mih em 17/01/2012

May trata de publicar isso viu,
adorei seu conto, já ia perguntar se é pessoal… kkk
Pq já vivi algo parecido e vc sabe né?
muito bom mesmo flor, beijão

  

[Reply]

Mayara Reply:

nada pessoal, amiga. Mas não sabia que você havia vivido uma situação parecida. Conta isso direito, menina! uashuas..

Beijos,
May ;*

  

[Reply]

Jeh Asato em 18/01/2012

Eu baixei essa música DESSE VÍDEO ontem mulher!!!
o.O
Coincidência ou destino????

#surpresa

=*

  

[Reply]

Mayara Reply:

rs, acredito mais em DESTINO! aushaus!

Beijos,
May ;*

  

[Reply]

:: Loma em 21/01/2012

Hey Maay ^^

Owwwwww amei queremos mais!!!!!!
Final feliz – aprendiz ou triste???

Xxx

:: Loma

  

[Reply]


Comentar






Get Adobe Flash player